Engavetada

          A criatura que está na gaveta, remexe-se e esperneia, morde todos os cantos escuros e inflige as unhas nas arestas, a criatura na gaveta esgravata e grita um grito mudo e aprisionado.

          Do outro lado ninguém a ouve, mas ele está lá, passa bem perto e volta a afastar-se, não se recorda, não se interessa, não prevê a sua saudade daquela criatura.

          Engavetada, é o que é, é quem ela é, a Engavetada...
          
          Mas há momentos na vida em que mudamos de sítio, mudamos de tudo ou é simplesmente domingo à noite e tempo de melancolia e dá-nos assim uma vontade de limpar o pó às coisas e aí damos por nós a pegar em criaturas das quais não temos qualquer memória... Num destes preciosos tempos ele abriu a gaveta e no meio de tantas outras lá estava ela a engavetada... cansada de tanto se debater com os limites da sua gaveta, despenteada, mais feia, mais gorda, já nem era bem ela, era uma engavetada diferente. Ele, claro olhou-a e não se comoveu sequer, pois esta era uma criatura que ele não conhecia, era uma imagem envelhecida de alguém que não vemos há muito tempo.

          A engavetada ainda tentou mexer um pequeno braço ou uma perna, dar um sinal de si e de vida, mas nem sempre há forças para voltar ao início, sacudir o pó da venta e sorrir com todos os dentes... nem sempre há dentes.
          
          A criatura engavetada arrastou-se para o limite da gaveta e sem que ele se apercebesse, jogou-se no infinito. Deixou um pequeno bilhete que dizia:

           "Longe da vista, longe do coração."


Marta Lima

Porto, 23 Maio de 2011