A montanhosa
Era uma vez uma criaturinha
montanhosa. Montanhosa era assim, muito misteriosa. Do seu canto observava
atenta a tudo o que se passava rente ao chão, nas árvores e debaixo delas, nas
casas, nos prédios mais altos, nos aviões, nas nuvens e para além delas. Montanhosa conhecia
os segredos mais indiscretos e também os acontecimentos mais frenéticos e por
isso, mesmo calada, impunha um tremendo respeito. Mas montanhosa não era apenas paisagem... Sempre que via alguma desordem, fazia as malas para seguir viagem. Montanhosa, não era muito calorosa, nem amistosa, mas em compensação bastante assertiva, não deixando nada ao acaso: às criaturas mais adormecidas despejava uma montanha de coisas para fazerem. Aos ouvidos mais moucos dava sermões, às
mais impulsivas, rebatia com todas as coisas escusadas e acusadas. Aos intrometidos, escondia o marido e a mulher, para ninguém meter a colher. Aos mais apressados punha-se a jeito a dificultar caminho e aos mais levianos empoleirava-se nas costas a pesar. Para os mais depressivos cavava um túnel com uma luzinha ao fundo, aos mais corajosos gostava de rondar, apenas para
intimidar e aos que queriam mesmo ser famosos, esticava-se para bem cima para afastar o topo. Montanhosa era muito persistente, havendo grande fé ela movia-se do lugar, mas só saía de vez se enfrentada de frente! O que mais detestava era manha e vendo para além das aparências, logo desmascarava: “És uma criatura
tacanha!” Foi assim, que montanhosa, a grande misteriosa, ficou conhecida como a criatura de firme postura. Cheios de respeito e muito a eito,
todos passavam a palavra: “Cuidado! Quando te aparecer uma montanha não te
ponhas com manha…!”
Mali
Seltzer