segunda-feira, 27 de junho de 2011

Duas criaturinhas desorientadas

Era uma vez Saudadezinha, ela sentia muitas saudades... sentia saudades de tudo, de todos e até dela própria. Saudadezinha só sorria para o passado. Sempre saudosa, acenava em luto às memórias que mal se tinham acabado de formar. Ela acenava e acenava, mas nem assim conseguia sacudir as imensas saudades, que se alastravam pelos seus braços melancólicos. Acenou a vários pôres-do-sol que nunca viu nascer, acenou a vários amores que nunca chegou a conhecer… Acenava imparável a todos que passavam a ser passado e na sua ânsia de ter sempre em vista o que já tinha acontecido, começou a andar de costas, esbarrando em tudo e em todos e todos e tudo passavam pela vida de Saudadezinha como numa longa esteira rolante. De tanto andar de costas, a sua cabecita começou a ficar zonza… zonza, zonza, zonza… e aiiiii!!!! esbarrou em cheio contra Futurinho, que de tanta pressa pelo que aí vinha, já não via nada pela frente. Naquele exacto segundo, Saudadezinha desfez-se em memórias e Futurinho deixou escapar a sua pressa… As pequenas criaturas, despidas dos seus tempos e desorientadas nas suas direcções, olharam-se sem trocarem uma só palavra. Em silêncio se conheceram e em silêncio foram acertando o passo, embaladas num novo ritmo... “só em amor se pode viver no presente”, “só em amor se pode viver no presente”...


Mali Seltzer