Era uma vez uma boca, uma boca grande e cheia de dentes à volta. Quem vê, diz logo que não pode ser só boca, é uma boca que ri, que ri à gargalhada, uma boca que fala sem parar, uma boca que te persegue quando estás de costas, sempre a abrir e a fechar. Uma boca que saltita e que às vezes se suspende no ar, num tom grave. Uma boca que se cala. Tem por dom fazer lembrar qualquer boca, menos uma das que eu conheço, a boca dramática de Mali.
Mali é uma boca. Mali também ri sem parar, também fala, também sussurra, também se altera, mas Mali tem o dom de ser a boca mais dramática de um pequeno reino chamado TOU-MAL. As tou-malenses costumam ser bocas que se queixam, que gemem, lamuriam a toda a hora, bocas que se cerram, que rangem os dentes quando tu passas. Mas Mali não. Mali é uma boca que canta ópera, uma boca que grita ecos, uma boca que sibila, uma boca que te faz chorar. Mali é artista de teatro e de cinema e de tragédias. Mali é um drama a fingir, que representa e encanta todas as bocas tou-malenses do reino. Assim que termina os seus dramas, foge do palco em direcção aos camarins, ouvindo os aplausos cada vez mais longe. E enquanto corre a sua boca enche, enche quase até rebentar, até que entra no seu quarto, no seu canto, na sua casa e abre a boca bem aberta para deixar sair, sob a forma de sussurro aveludado... todo o amor que se esconde em cada drama.
Tanto drama que o meu amor me trama!
Porto, Maio de 2007
Marta Lima