Era uma vez uma migalha de pão, dura e seca.
Vivia por debaixo de um assento de um carro, junto do pêlo perdido de um cão.
Passara ali todos os dias da sua vida. Uma vida inteira, em pleno verão. O carro era velho e quente, quase a abafava, a tostava de calor. O pêlo de cão,esguio e negro tentava toca-la com alguma das suas pontas, mas o tapete não deixava, travava-o rugosamente.
Ela, morena e pequenina falava-lhe da brancura da sua farinha, do forno escuro, da sua família que vira ser engolida à pressa. O pêlo de cão torcia-se de dor com vontade de a acariciar e encher de meiguice. Dizia-lhe que o inverno estava aí, que ela iria amolecer e que ele aproveitaria boleia de uma gota de chuva para deslizar até ela, que se enrolariam e ele lhe mostraria novamente o amor. A migalha sonhava, sem dizer, que ela e o pêlo seriam pão. Seriam tal como o pão que pequeninos deixam cair e voltam a pôr à boca. Juntos seriam pão.
O inverno chegou. Começou por ser frio e cinzento, até que as primeiras chuvas chegaram e da ponta de um guarda-chuva apressado caiu a famigerada gota. O pêlo lançou-se e deslizou chegando até ela. Pela primeira vez, tocava-a, estava finalmente junto dela. Passaram a noite agarrados, emaranhados, a secar a humidade do corpo. Quando o pêlo de cão acordou no dia seguinte, a sua migalha jazia desfalecida nos seus braços, estava cinzenta ou talvez verde, cheirava mal e transbordava sobre o pêlo, como se fosse um manto de veludo. Morrera nos seus braços, nos braços de um pêlo de cão que a amava como se fosse o seu pão, que chorava como se tivesse fome.
O meu amor come, antes de ter fome!
Porto, Maio de 2007
Marta Lima
Porto, Maio de 2007
Marta Lima