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sexta-feira, 1 de julho de 2011

Coração revólver

Era uma vez um coração revólver, que em vez de bater, revolvia. Revolve, revolve, revolta.
Voltas mais voltas para um tiro de sorte, voltas mais voltas um estalido, voltas mais voltas uma zumbideira descontrolada.
O coraçãozinho cansado de se revolver, engatou uma das suas pernas nas roldanas do corpo.
Tudo parou.
-Tantas vezes o corpo me fez girar e nunca para disparar. Que corpo morto, que corpo cansado. Esta revolta falo-á pensar.
O coração com a perna despedaçada, aguentou o mais que pode as roldanas do corpo, mas a pressão era terrível e mais uma perna ele teve de encalhar. Suspirou, depois respirou pausadamente e pensou, será que tudo o que tinha que perder era tudo o que tinha para investir?
As roldanas lançavam guinchos estridentes, as roldanas moíam as pernas do coração. Depois desta revolta, não poderia pôr-se de pé novamente, não poderia correr junto à praia, nem dançar com uma jovem menina, não poderia contar os seus passos nas pedras da rua e as roldanas moíam até ao osso.
Voltou a revolver. Revolve, revolta, revolta sem pernas. Revolve, revolve a revolta.
-Não pode ser! E estica um braço.
-Não aguento mais! e estica o outro. Revolve devagar enquanto consome os braços do coração. Como pode uma revolta existir sem mãos erguidas? Sem abraços? Revolve, Revolve, BANG!
Um disparo seco. Um único disparo lança o teu coração para o meiínho dos meus olhos. És mesmo tu, aquele que está à minha frente, sem coração, com um pequeno buraquinho no peito. E eu, com uma nódoa negra na testa, agarro o teu coração deficiente para te dizer que, eu não perco nenhuma perna se não te tiver, eu não perco nenhum braço se não te tiver, eu não perco nada do que tenho se não te tiver. Mas vendo-te assim, mesmo à minha frente, a disparar corações revoltados, só me apetece dar-te os meus braços e as minhas pernas e tudo o que tenho, para ficar só contigo.
Revolve, revolve, revolta o meu amor.

Porto, Maio de 2007

Marta Lima

A Maniquinha

Era uma vez uma máquina, uma maniquínha que abria e fechava, que ia mais longe ou mais perto, que apanhava todos ou só um. Era uma vez uma maniquínha que trabalhava devagar enquanto os outros deixavam o seu rasto, que trabalhava tão depressa que toda a gente virava fantasma.
Na sua longa vida assistira aos momentos mais belos e aos momentos mais tristes, tinha sido agarrada pelas mãos mais doces e pelas mais ásperas. Já sofrera várias cirurgias e sempre que ia a banhos ficava sem ver nada mais de um mês! Era uma maniquínha que embaciava com o calor da multidão, que tinha medo do pó e da água, que tinha medo de cair e ficar cega para todo sempre.
Esta maniquínha passou de mão em mão mais do que uma geração.
Poderia ser uma máquina normal, mas não, era mesmo especial. Era pesada e complexa, mais resistente e precisa do que aquilo que imaginava, uma máquina apaixonada mais que todas, pela luz.
E sempre que a noite caía e o tudo se transformava em nada, ela abria os olhos mais ainda, para deixar entrar a luz, nem que um pouquinho e poder sonhar.
Frente a frente, a maniquínha ainda dormente abre os olhos todos, de repente! O que faria outra maquina, tão nova, tão simples, tão leve, ali mesmo ao lado? Ah claro! Era o seu namorado! Juntos partiriam ao pescoço de uma geração, rápida e sagaz que através dos dois olharia o mundo e levá-lo-ia consigo para o futuro.
A maniquínha no meu coração, fotografa com emoção!

Porto, Maio de 2007

Marta Lima


Pão e Fome

Era uma vez uma migalha de pão, dura e seca.
Vivia por debaixo de um assento de um carro, junto do pêlo perdido de um cão.
Passara ali todos os dias da sua vida. Uma vida inteira, em pleno verão. O carro era velho e quente, quase a abafava, a tostava de calor. O pêlo de cão,esguio e negro tentava toca-la com alguma das suas pontas, mas o tapete não deixava, travava-o rugosamente.
Ela, morena e pequenina falava-lhe da brancura da sua farinha, do forno escuro, da sua família que vira ser engolida à pressa. O pêlo de cão torcia-se de dor com vontade de a acariciar e encher de meiguice. Dizia-lhe que o inverno estava aí, que ela iria amolecer e que ele aproveitaria boleia de uma gota de chuva para deslizar até ela, que se enrolariam e ele lhe mostraria novamente o amor. A migalha sonhava, sem dizer, que ela e o pêlo seriam pão. Seriam tal como o pão que pequeninos deixam cair e voltam a pôr à boca. Juntos seriam pão.
O inverno chegou. Começou por ser frio e cinzento, até que as primeiras chuvas chegaram e da ponta de um guarda-chuva apressado caiu a famigerada gota. O pêlo lançou-se e deslizou chegando até ela. Pela primeira vez, tocava-a, estava finalmente junto dela. Passaram a noite agarrados, emaranhados, a secar a humidade do corpo. Quando o pêlo de cão acordou no dia seguinte, a sua migalha jazia desfalecida nos seus braços, estava cinzenta ou talvez verde, cheirava mal e transbordava sobre o pêlo, como se fosse um manto de veludo. Morrera nos seus braços, nos braços de um pêlo de cão que a amava como se fosse o seu pão, que chorava como se tivesse fome.
O meu amor come, antes de ter fome!

Porto, Maio de 2007

Marta Lima 

Porto, Maio de 2007

Marta Lima 

Mali ou a boca dramática

 
Era uma vez uma boca, uma boca grande e cheia de dentes à volta. Quem vê, diz logo que não pode ser só boca, é uma boca que ri, que ri à gargalhada, uma boca que fala sem parar, uma boca que te persegue quando estás de costas, sempre a abrir e a fechar. Uma boca que saltita e que às vezes se suspende no ar, num tom grave. Uma boca que se cala. Tem por dom fazer lembrar qualquer boca, menos uma das que eu conheço, a boca dramática de Mali.
Mali é uma boca. Mali também ri sem parar, também fala, também sussurra, também se altera, mas Mali tem o dom de ser a boca mais dramática de um pequeno reino chamado TOU-MAL. As tou-malenses costumam ser bocas que se queixam, que gemem, lamuriam a toda a hora, bocas que se cerram, que rangem os dentes quando tu passas. Mas Mali não. Mali é uma boca que canta ópera, uma boca que grita ecos, uma boca que sibila, uma boca que te faz chorar. Mali é artista de teatro e de cinema e de tragédias. Mali é um drama a fingir, que representa e encanta todas as bocas tou-malenses do reino. Assim que termina os seus dramas, foge do palco em direcção aos camarins, ouvindo os aplausos cada vez mais longe. E enquanto corre a sua boca enche, enche quase até rebentar, até que entra no seu quarto, no seu canto, na sua casa e abre a boca bem aberta para deixar sair, sob a forma de sussurro aveludado... todo o amor que se esconde em cada drama.
Tanto drama que o meu amor me trama!

Porto, Maio de 2007

Marta Lima

Coração Toupeira

 
Era uma vez, um pequeno coração toupeira, que quando não batia, andava a fazer asneira.
Era o coração toupeira mais distraído e travesso do mundo subterrâneo.
Sempre às escuras para ninguém ver, comia cenouras e rabanetes alheios, destruía tocas e túneis, quintais inteirínhos, pelo prazer de os sentir desfeitos.
Nada paráva este coração toupeira, que por fugir da luz, nunca era visto por ninguém, nem por si mesmo.
Até que, num dia de sol radiante, enquanto batia compassado e preguiçoso, no aconchego da terra húmida, algo inesperado aconteceu.
Pah! Uma pá gigante, metálica e afiada atravessou-o ao meio e fê-lo em dois.
O coração assustado, começou a bater rápido e em duplicado. E quando a pá voltou a atacar, ficando mesmo à sua frente, um raio de luz atravessou a terra e espelhado na pá, não um, mas dois corações, batiam descordenados e olhavam-se como estranhos.
Tanta paixão, parte ao meio o coração!

Porto, Maio de 2007

Marta Lima


Jovem pestana

 
Era uma vez uma Jovem Pestana, que morava num olho-verde,lindo!
Sempre que o olho pestanejava a jovem pestana suspirava encantada, por esvoaçar ao vento.
Quanto mais o olho se admirava, mais alto ela subia, quanto mais o olho adormecia, mais tonta ela ficava, de pernas para o ar.
Até que num belo dia, o olho abriu mais e mais e mais ainda. Mas não parecia admirado, nem assustado, nem mesmo aterrorizado... Estranho... Hmmm... De súbito começou a pestanejar desenfreadamente... ó, mas que tonteira!Com tanto vai-e-vem ela nem via bem.
Será que? Sim, Sim! Ele estava apaixonado e era o seu primeiro dia, de paixão.
Blink, blink, blink a um ritmo que amainava quanto mais passava o tempo.
Blink, blink, que lindo!
Blink, já pestanejava lentamente, para manter o olho aberto quanto mais tempo pudesse, a olhar a sua amada.
A jovem pestana acalmava e aproveitava os longos momentos lá no alto, para apreciar o mundo e o Amor.
Mas eis senão quando, como que por magia, não sabia ela se boa ou má, se despega do olho e salta em queda livre para a ponta do nariz do amor.
O olho, que a vê cair, estica rapidamente o braço e pega-a entre os dedos da sua mão.
Ele disse:
-Pede um desejo!
E ela pensou
Quero que tu sejas sempre o meu amor.”
Ele abriu os dedos e colocou a sua jovem pestana junto do coração da sua amada.
Tanta pestana que o amor nunca se engana!

Porto, Maio de 2007

Marta Lima

 

Fogo

Era uma vez um pequeno monstro flamejante que vivia numa casa de pedra, no cimo de uma montanha.
Ao amanhecer quando o sol queimava a pele, o monstrinho pé ante pé, quase rastejando, saía da sua casinha cinzenta. Em volta a paisagem negra, todas as árvores, todas as flores, todos os bichos da floresta haviam morrido queimados pelo seu rasto. A sua própria sombra emanava calor.
O monstrinho flamejante era tão quente por fora, como era por dentro. O seu coração ardente ansiava bater forte de amor! Mas nada resistia à sua chama destruidora. Nada resistia à paixão das suas labaredas incendiárias. E todos os dias o monstrinho seguia pelo caminho, ardido, queimado, desfeito, até ao ponto mais alto. Olhava a cidade lá em baixo, os prédios, os carros, as casas, os jardins, as pessoas e pensava como seria se ele desatasse a correr, desse um enorme salto e de uma só vez pegasse fogo ao Mundo.
Tanta Paixão, Mata o Coração!

Porto, Maio de 2007

Marta Lima

Bala

 
Era uma vez um bichinho redondo, que apaixonado, desceu ruas íngremes e calçadas sujas, rolou milhares de escadas, enrolou-se em infinitos grãos de areia, percorrendo quilómetros para chegar junto da sua amada.
Quanto mais rebolava, mais estreitava, até que a encontrou,redondinha e sentadita à beira-mar, era ela, aquela que o faz vibrar com as suas curvas cintilantes.
Quando ela o viu, não o reconheceu.
E ele disse:
- Sou eu! O bichinho redondo, que se fosse chumbo furava o teu coração com amor.
Ela olhou-o, dizendo:
- Porque não me disseste onde estavas? Ía ao teu encontro e no meio-do-caminho, seríamos mais iguais. Tanto tempo te esperei! E tu acabaste por transformar-te num bichinho afunilado, quase num seixo, como estes da praia. Agora, olhando bem para ti, agora que já não te conheço, pareces uma bala que fura o meu coração para me fazer morrer.
Porque não me disseste onde estavas?
O amor pede ânsia e não distância.

Porto, Maio de 2007

Marta Lima

Frio

Era uma vez uma criatura gelada. Que quanto mais se aproximava do seu amor, mais definhava.
O seu coraçãozinho gelado derretia-se de ternura e paixão, sempre a palpitar.
No fim, virou água que o seu amor bebeu para depois a chorar.

Porto, Maio de 2007

Marta Lima

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Brilhozinho nos olhos

Era uma vez uma criatura Brilhante, complexa e bem desenhada, que morava no cimo de uma torre reluzente. Era um desses seres carismáticos e sorridentes, que por onde passam, espalham no ar um pó mágico que nos deixa tontos, mas felizes.
No alto da sua torre, construída ao pormenor e com as mais finas e raras matérias a criaturazinha Brilhante, engendra mil planos e estratégias, imagina um sem número de personagens, acções e sentimentos. Escreve, descreve, desenha, cria todo um mundo novo, um mundo dentro do outro.

À volta de uma criatura Brilhante, tudo se dispõe consoante a ordem que ela própria imagina, tudo a persegue e procura, tudo a ela se dirige, tudo a atinge, tudo dela provém.

Certo dia, sentado na sua poltrona, junto da maior janela do piso mais alto da sua torre, a criatura Brilhante recebe a visita de uma pequena Estrela meio apagada. Os dois sentam-se a conversar com sorrisos e gestos, com olhos e energia. Aos poucos a pequena Estrela apagada vai recebendo o reflexo luminoso, que vindo do sol, passa dos olhos da criatura Brilhante em direcção ao mundo. Fascinada, a Estrela cada vez mais iluminada, alia-se, enlaça-se, deixa-se absorver, expande-se em volta da criaturazinha Brilhante. Lá fora o mundo gira, em torno da torre espelhada, que permanece quieta e enamorada, sem pensar. Da torre mil raios espalham luz pelo planeta, como um enorme farol. A criatura Brilhante e a Estrela iluminada, juntas explodem em luz.

E se por vezes duas criaturas se separam, o mundo pára para receber um pouco de luz, as torres giram, os reflexos multiplicam-se e alguém se deixa iluminar. Mas nunca uma criaturazinha Brilhante deixa de ser Estrela, nem uma Estrela deixa de ser Brilhante!

Marta Lima
Porto, 7 de Setembro de 2007