Era uma vez, um pequeno coração toupeira, que quando não batia, andava a fazer asneira.
Era o coração toupeira mais distraído e travesso do mundo subterrâneo.
Sempre às escuras para ninguém ver, comia cenouras e rabanetes alheios, destruía tocas e túneis, quintais inteirínhos, pelo prazer de os sentir desfeitos.
Nada paráva este coração toupeira, que por fugir da luz, nunca era visto por ninguém, nem por si mesmo.
Até que, num dia de sol radiante, enquanto batia compassado e preguiçoso, no aconchego da terra húmida, algo inesperado aconteceu.
Pah! Uma pá gigante, metálica e afiada atravessou-o ao meio e fê-lo em dois.
O coração assustado, começou a bater rápido e em duplicado. E quando a pá voltou a atacar, ficando mesmo à sua frente, um raio de luz atravessou a terra e espelhado na pá, não um, mas dois corações, batiam descordenados e olhavam-se como estranhos.
Tanta paixão, parte ao meio o coração!
Porto, Maio de 2007
Marta Lima